Desde sensivelmente o início do novo milénio que a depressão atingiu proporções epidémicas. E não deixa de ser profundamente paradoxal que, na nossa época, enormes avanços no campo das neurociências, farmacologia e terapias apenas pareçam ter tornado mais pronunciada a insatisfação humana. Isto, também nas sociedades mais ricas. Naquelas onde, afirma-se, as pessoas nunca estiveram tão bem.
A depressão é uma síndrome, ou seja, um conjunto de sinais que não aparecem todos ao mesmo tempo nem numa ordem que torne previsível a sua evolução. Existem vários tipos de depressão e várias formas de desencadeamento de processos depressivos. O sintoma transversal a todas as depressões é a anedonia, i.e., a perda da possibilidade de experienciar prazer e satisfação com o que se tem. Por vezes, a pessoa pensa que a sua insatisfação provém do outro, ser um problema do outro, que o problema é do brinquedo e não da capacidade de brincar. No entanto, o deprimido perdeu a possibilidade de encontrar no outro uma resposta, de fazer com que o desejo circule, de se deixar afectar pelas coisas da vida. A vida de um deprimido torna-se uma monotonia sem relevos nem alternações.
É verdade que a depressão é um processo semi-autónomo em relação ao contexto social e histórico no qual emerge. É uma resposta do sujeito e a evolução dessa resposta. Mas não é por acaso que um certo tédio de viver, sem dor, nem prazer, nem pathos, nem paixão se tenha tornado uma epidemia contemporânea. O termo “depressão” não provém da Psiquiatria nem da Psicologia, mas da Economia. Integrou as nossas formas de falar e nomear o mundo aquando da Grande Depressão de 1929 e dos ciclos de crescimento e queda (depressão) económicas que a seguiram. Ou seja, a depressão também é um efeito das sociedades industrializadas, organizadas em torno do desempenho e do sucesso, da produtividade, de resultados, da constituição de Eu Ideal em relação ao qual o sujeito se sente compelido a corresponder. E se o sujeito internaliza uma versão idealizada de si como a única versão válida de si, desenvolve sentimentos de insuficiência e menos valia e perde a capacidade de extrair da vida o que ela tem de interessante e prazeroso.
Ao nível do sujeito, a depressão não resulta apenas de uma perda, mas da adaptação excessiva. Gabor Maté mostrou como certas formas de sofrimento psíquico emergem quando o sujeito aprende a silenciar sistematicamente necessidades elementares de reconhecimento e cuidado para preservar vínculos dos quais depende afectivamente. Por outras palavras, o problema é o amor. O preço dessa supressão continuada é frequentemente a desconexão de si mesmo, não ser capaz de distinguir o que se sente, deseja ou pensa. A vida psíquica depende da possibilidade de imaginar alternativas para si próprio e de encontrar alguém diante de quem a palavra possa existir sem medo de punição ou abandono. A depressão instala-se muitas vezes precisamente quando não é possível falar verdadeiramente, quando a linguagem deixa de servir para criar ligação consigo e com o outro e passa apenas a organizar sobrevivência, adaptação ou silêncio. Nesse sentido, existe também uma dimensão ética na fala: recuperar a possibilidade de dizer aquilo que foi vivido, sentido ou calado é, frequentemente, uma das formas mais profundas de restituição do sujeito a si mesmo.
Existe sempre uma relação íntima entre a cura da depressão e a fala. Isso acontece porque falar do que foi perdido restaura o Eu perdido com o outro – Freud alertou para a antiga Melancolia ser uma perda do Eu aquando da perda do outro. Por outras palavras, ajuda-se um deprimido ouvindo, permitindo-lhe usar o poder que as palavras têm de ao falarmos de nós, nos encontrarmos, reconstruirmos, reorganizarmos e também nos libertarmos de nós.
