Amamos porque algo nos falta e projectamos no amor uma possibilidade de preenchimento. Mas o amor não preenche a falta e apenas a torna mais evidente. Não é possível amar sem aceitar ter necessidade do outro ou sem poder depender do outro. Lacan dizia que amar significa “dar ao outro o que não temos”, ou seja, só amamos a partir de uma posição de humildade. É por isso que os objectos oferecidos por amor são normalmente precários e não têm valor material, mas simbólico.
O amor implica também o deslocamento da paixão para um fim outro, o fim de construir, estar e viver. A paixão é forma de amor, mas o amor é uma recombinação dos indícios da paixão. Na paixão, o outro é uma imagem idealizada do Eu, um espelho do nosso ideal, uma versão melhorada de nós. Apaixonarmo-nos permite-nos aceder a novas versões de nós mesmos. Mas no amor, reconhecemos a insuficiência do outro. Podemos admirar as qualidades do outro, mas amamos o que falta ao outro.
E de alguma forma, o amor contém uma espécie de embuste. Na verdade, amamos porque queremos ser amados – porque entregamos ao outro uma parte irrecuperável de nós -, mas só somos amados se formos amáveis – se pudermos cuidar da parte irrecuperável do outro. Nessa medida, o amor leva-nos a sair de nós mesmos. E é no espaço de relação e afecções não inteiramente traduzíveis, entre a satisfação e a insatisfação, a presença e ausência, a idealização e a desidealização, que pode ser construído, não o amor ideal, mas um amor que seja possível.
