Falar em psicoterapia

A Psicoterapia é uma cura pela fala. Mas a razão pela qual falar é terapêutico, pela qual falar em psicoterapia é diferente de falar noutros contextos, não é, por vezes, compreendida.

1. Falar alivia o sofrimento. O sofrimento psíquico provém da internalização de afectos negativos, como raiva, frustração e ressentimento, de que não estamos conscientes, e que geram desmotivação, abatimento, depressividade e culpabilidade. Falar permite exteriorizar esses afectos, que estão sempre presentes no discurso, de maneria mais ou menos directa, gerando um efeito de alívio.

2. Falar torna-nos mais conscientes da nossa estrutura. Quando falamos, também ouvimos o que dizemos e isso permite conhecermo-nos melhor. Ao sabermos como organizamos a nossa experiência no mundo, conseguimos ver-nos com maior distância e objectividade. Conseguimos aperceber-nos de pensamentos e sentimentos que não sabíamos que tínhamos e que determinavam a nossa maneira de ser. Em última análise, falar liberta-nos de nós.

3. Falar transforma o que é falado. É através da linguagem que organizamos a nossa experiência no mundo e, por isso, é também através dela que a mudamos. Quando o paciente ou o clínico revelam alguma coisa sobre o paciente, isso muda a maneira como o paciente se experiencia a si mesmo e por isso muda também a sua ansiedade, depressão e sintomas. A cura é um efeito de o paciente integrar e apropriar-se daquilo que dentro de si falava em vez de si.

4. Falar não é um processo simples. Muitas vezes, não encontramos as palavras certas para dizermos o que sentimos, ou mentimos a nós mesmos, ou falamos a partir do que nos disseram e não do que realmente pensamos. Falar não significa simplesmente falar. Estabelecemos uma relação com a nossa fala. A psicoterapia permite-nos usar as palavras de maneira progressivamente mais honesta. Permite-nos aprender a pensar melhor.

4. Os psicólogos fizeram a sua própria psicoterapia pessoal. Além da sua formação académica, grande parte dos psicólogos também fizeram psicoterapia para conhecerem a sua própria estrutura e saberem diferenciá-la da dos seus pacientes. Para não se projectarem no paciente. Os psicólogos tiveram de se ouvir primeiro a si mesmos para poderem ouvir o outro. Ouvir é uma arte. Um amigo não treinado, por muito boa vontade que tenha, ouve-se a si próprio. Um psicólogo ouve o paciente.

5. Os psicólogos submetem o seu trabalho a supervisão e discutem os casos clínicos em reuniões com pares para neutralizar a resposta da sua própria subjetividade face ao material clínico. Além da sua formação e da sua psicoterapia pessoal, o caso de cada paciente também é trabalhado em grupo para que o psicólogo possa fazer devoluções tão objectivas quanto possível. Quando um psicólogo faz uma intervenção, não foi porque algo lhe ocorreu intuitivamente naquele momento, sem pensar muito no assunto. Existe um trabalho nos bastidores que o paciente não vê.

6. O psicólogo não impõe as suas próprias leituras como verdades universais. Porque, afinal, o objectivo da psicoterapia é que o paciente tenha voz própria. As leituras sobre o paciente são construídas com o paciente, i.e., há um trabalho conjunto no sentido de reconstruir progressivamente a verdade do paciente.

7. Estes cuidados não significam que a psicologia seja subjectiva. Significa que existem regularidades conceptuais e teóricas, mas os psicólogos reconhecem a complexidade do seu trabalho, a especificidade de cada história de vida e a singularidade de cada pessoa. Que embora tenham acesso a muitos casos provenientes da sua experiência, da experiência dos seus colegas, da literatura, que tenham feito a sua formação, a sua psicoterapia pessoal, a sua supervisão e intervisão, não deixam de ser cuidosos e extra-rigorosos no seu trabalho.

8. Cada psicólogo tem o seu estilo pessoal. Os psicólogos não são computadores. Em alguma medida, a relação terapêutica também é uma relação como as outras. Por vezes, as pessoas compreendem-se logo num primeiro momento, outras vezes demoram mais tempo. E a relação terapêutica é o espaço ideal para aprender a transformar o desencontro na arte do mútuo entendimento e compreensão.